
Por Fabiano Mazzei
Fotos: Musée Air France/Divulgação
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Era a hora do almoço em Paris, 12h40 mais precisamente, do dia 21 de janeiro de 1976, quando decolou aquele que se tornaria o avião mais icônico da história da aviação mundial. Sob o prefixo F-BVFA, ganhava os céus da França o Air France Concorde, o único jato supersônico a transportar passageiros em todos os tempos, em seu primeiro voo comercial. Era o início da carreira de uma lenda da engenharia aeronáutica, encerrada 27 anos depois, em 2003.
A viagem inaugural do Concorde completou 50 anos em 2026. Ela partiu do Aeroporto Charles De Gaulle, na capital francesa com destino ao Rio de Janeiro, no Brasil. Com uma parada para abastecimento em Dakar, no Senegal, a aeronave aterrissou no Aeroporto Internacional do Galeão após de 7h26 de voo, desde Paris. Relatos da época contam que o terminal brasileiro ficou lotado de pessoas só para testemunhar o feito histórico.

Após 7h26 de voo, o primeiro Air France Concorde chega ao Rio de Janeiro.
O jato cruzou o Oceano Atlântico com sua capacidade máxima: 100 passageiros. A bordo, eles foram recebidos pelos comissários com kits de “amenities” que contavam com itens de toilette e até cigarros, um hábito ainda comum e permitido dentro dos aviões nos anos 1970. O jantar, com direito a caviar, trufas frescas Périgord e muito champagne – francês, claro –, foi servido em porcelana fina e taças de cristal, quando o avião se aproximava do litoral do Brasil. De sobremesa, doces da pâtisserie Lenôtre foram a escolha clássica do chef.
LUXO A BORDO
Estes detalhes revelam a ambição do Concorde desde o seu primeiro voo: estabelecer um novo conceito de luxo a bordo nos voos internacionais. A cabine da primeira versão do jato, por exemplo, foi projetada por Raymond Loewy: um famoso designer industrial, que priorizou o conforto das poltronas – dispostas em pares – e a ambientação visual, com o uso de tons de bege e marrom. Loewy também foi responsável pela sala vip exclusiva dos passageiros do Concorde no terminal Charles De Gaulle, onde utilizou móveis desenhados por Le Corbusier.
Depois dele, outros designers importantes como Pierre Gautier-Delayer e Andrée Putman cuidaram de renovar a sofisticação da cabine nos anos 1980 e 1990. A elegância se estendia também ao uniforme dos comissários, assinado originalmente pelo estilista Jean Patou, conhecido por introduzir peças de estilo esportivo para o guarda-roupa feminino da época. O primeiro “look” era composto de uma blusa com listras bege e azul marinho, criando um efeito ótico que remetia à logo da Air France. Em 1985, a estilista Nina Ricci também criou a coleção de roupas usada pelas aeromoças do Concorde.

A luxuosa cabine e o uniforme assinado por estilista das comissárias: serviço de jantar com direito a champagne champagne.
Entretanto, ainda que imersos em tanta beleza e luxo, havia um detalhe na cabine do Concorde que chamava ainda mais a atenção dos passageiros: um painel digital, que marcava a velocidade alcançada pela aeronave. Em janeiro de 1976, o momento histórico foi anunciado do cockpit, pelo piloto – que viajava sempre acompanhado por um copiloto e um engenheiro de voo: “Senhoras e senhores, acabamos de atingir a velocidade do som, Mach 1, ou 1.235 km/h. Bem-vindos ao mundo do voo supersônico.”
Como se não bastasse a euforia do fato histórico, a experiência iria além: empurrado por quatro motores Rolls-Royce Olympus, o Concorde chegaria a Mach 2.02 – ou 2.472 km/h –, a 60 mil pés de altura: cerca de 18 km acima do nível do mar. Neste momento, passageiros e tripulação puderam contemplar de suas janelas a curvatura do planeta Terra, com um azul escuro profundo acima da aeronave, bem no limiar do espaço.

O complexo cockpit dos pilotos do Concorde nos anos 1970
Para efeito de comparação, um voo de carreira internacional nos dias atuais costuma viajar a 12 mil metros de altitude máxima, com velocidade cruzeiro na faixa dos 850 km/h.
A proeza do Concorde foi possível não apenas pela potência de seus motores: projetado por empresas francesas e britânicas, o jato contava também com uma fuselagem extremamente aerodinâmica, com 62 metros de extensão, 11 de altura e 25 metros de uma ponta a outra das asas. Este conjunto permitia ao jato uma taxa de subida de 2 a 4 mil pés por minuto, algo realmente muito veloz aos padrões convencionais da aviação comercial.
Para além de todo o glamour que envolvia as suas viagens supersônicas, o Concorde foi uma obra-prima da engenharia aeronáutica e da tecnologia da época. Um capítulo marcante da indústria aeroespacial e da capacidade de seus engenheiros e projetistas em criar algo genuinamente inovador, que se transformou em legado e inspira o mundo da aviação até hoje.
Nos detalhes, a complexo cockpit da aeronave; a luxuosa cabine e o uniforme assinado das comissárias; e o serviço de jantar, com champagne.